sábado, 20 de agosto de 2011

Coisa...

A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia. Coisas do português.

A natureza das coisas: gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" é cigarro de maconha.

Em Olinda, o bloco carnavalesco “Segura a Coisa” tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já". E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o “Segura a Coisinha”.

Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica “O Coisa”, em 1943. “A Coisa” é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu “A força das coisas”, e Michel Foucault, “As palavras e as coisas”.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!".

Devido lugar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. "Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca". Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta "Alguma coisa acontece no meu coração", de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!

Coisa de cinema! “A Coisa” virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: “Disparada”, de Geraldo Vandré ("Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar"), e “A Banda”, de Chico Buarque ("Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor"). Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".

“Cheio das coisas”, “As mesmas coisas”, “Coisa bonita”, “Coisas do coração”, “Coisas que não se esquece”, “Diga-me coisas bonitas” e “Tem coisas que a gente não tira do coração”. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.

Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, "são tantas coisinhas miúdas"). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade ("ô coisinha tão bonitinha do pai"). “Todas as coisas e eu” é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa... Já qualquer coisa doida dentro mexe". Essa coisa doida é uma citação da música “Qualquer coisa”, de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem".

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas quando assume o poder a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai". Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à-toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema “Eu, etiqueta”, Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente". E, no verso do poeta, "coisa" vira "cousa".

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas para ser usadas, por que, então, amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas??? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.

Mas "deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida", cantarola Fagner em “Canteiros”, baseado no poema “Marcha”, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa.

ENTENDEU O ESPÍRITO DA COISA? QUE COISA, HEIN?! (Crônica recebida de Leonardo Silva)

Um comentário:

Anônimo disse...

Sr. Waldyr,

Para que não fique inventando folclore sobre os mineiros, vai aí o verdadeiro significado da palavra trem, comumente utilizado pelos mineiros ( retirado do minastrain.blogspot.com )

TREM - O Verdadeiro Significado da palavra
.
Recebi este texto via e-mail. A autoria é desconhecida, no entanto, como é dedicado aos mineiros, quis postar aqui no meu blog, que é bem mineirim.


Interessante que o assunto mineirês veio à tona logo no dia em que alguns transtornos foram causados pelo seu desconhecimento por parte de alguns jornalistas, que escreveram a seguinte manchete:

- "Trens batem de frente em Minas."

Os mineiros, obviamente, não deram a devida importância, já que para eles isto quer dizer apenas que duas coisas bateram. Poderia ter sido dois carros, um carro e uma moto, uma carroça e um carro de boi; ou até mesmo um choque entre uma mala de viagem e a mesa de jantar.

Movido pela curiosidade, resolvi então consultar o Aurélio. E vejam o que diz:

trem [Do fr. train.] S. m.

1. Conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante.

2. Comitiva, séqüito.

3. Mobiliário duma casa.

4. Conjunto de objetos apropriados para certos serviços...

5. Carruagem, sege.

6. Vestuário, traje, trajo.

7. Mar. G.Bras. Grupamento de navios auxiliares destinados aos serviços (reparos, abastecimento, etc.) de uma esquadra.

8. Bras. Comboio ferroviário; trem de ferro.

9. Bras. Bateria de cozinha.

10. Bras. MG C.O. Pop. Qualquer objeto ou coisa; coisa, negócio, treco, troço: "ensopando o arroz e abusando da pimenta, trem especial, apanhado ali mesmo, na horta." (Humberto Crispim Borges, Cacho de Tucum, p. 186).

11. Bras. MG S. Fam. Indivíduo sem préstimo, ou de mau caráter; traste.

12. Bras. MG Pop. Diz-se de pessoa ou coisa ruim, ordinária, imprestável; trenheiro: "É um sujeito muito trem" ;"São mulherzinhas muito trem."

(Bras.: é a abreviatura de Brasileirismo)


Vejam que o sentido de comboio ferroviário é apenas o 8º, e ainda é considerado um brasileirismo.

Comentei o fato com um amigo especialista em etimologia, que me esclareceu a questão: o comboio ferroviário recebeu o nome de trem justamente porque trazia, porque transportava, os trens das pessoas. Vale lembrar que nessa época o Brasil possuía uma malha ferroviária com relativa capilaridade e o transporte ferroviário era o mais importante. Assim, era natural que as pessoas fizessem essa associação.


Moral da estória:

O mineiro é, antes de tudo, um erudito.
Além de erudito, ainda é humilde e aceita que o pessoal dos outros estados tripudie da forma como usa a palavra trem.
Na verdade, acho que isso faz parte do "espírito cristão do mineiro".
Ele escuta as gozações e pensa: que sejam perdoados, pois não sabem o que dizem.

(autor desconhecido)