Carlos Magno* - O exercício de um cargo público — seja por eleição ou nomeação — costuma provocar transformações profundas. Para alguns, o cargo é compreendido como missão temporária; para outros, torna-se palco de vaidades, glamour e ilusões de permanência. Esquecem-se de que todo mandato tem início, meio e fim.
Não raramente, o acesso se torna difícil. Amigos antigos
passam a depender de agendas formais para uma simples conversa. As redes
sociais se enchem de fotos, abraços em crianças e idosos, poses protocolares
que, muitas vezes, alimentam a sensação de celebridade. Em certos casos,
instala-se a perigosa impressão de que o poder é permanente. Ledo engano.
Encerrado o mandato, chega o silêncio. O telefone que tocava
dezenas — às vezes centenas — de vezes ao dia deixa de tocar. As visitas
rareiam. Convites desaparecem. O chamado “pós-mandato” pode revelar um vazio
difícil de administrar. Não são poucos os ex-gestores que precisam de apoio
psicológico para lidar com a chamada “síndrome do poder” — a brusca transição
entre a centralidade absoluta e o quase anonimato.
Há ainda o aspecto jurídico. Durante o exercício do cargo,
alguns agentes públicos contam com foro por prerrogativa de função. Com o
término do mandato, esse privilégio cessa e processos podem ganhar maior
celeridade. Em diversas cidades brasileiras, inclusive em Canaã dos Carajás,
ex-gestores enfrentam questionamentos judiciais, bloqueios patrimoniais e
desgastes que atingem não apenas o agente público, mas toda a família. Sem
estrutura emocional sólida, as consequências podem ser devastadoras, inclusive
no âmbito conjugal.
O poder é transitório. O cargo é passageiro. O que permanece
é o caráter, a reputação e a forma como se tratou as pessoas ao longo da
jornada.
Que este seja um alerta a quem hoje ocupa funções públicas:
humildade não é fraqueza; é sabedoria. Mandatos passam. Os verdadeiros amigos —
e a consciência tranquila — permanecem.
* Jornalista e ex-dirigente partidário, com atuação e vivência nos bastidores da política paraense desde 1982, unindo experiência histórica, análise crítica e conhecimento de campo.

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