sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

OPINIÃO: O vazio do poder e suas consequências

Carlos Magno* - O exercício de um cargo público — seja por eleição ou nomeação — costuma provocar transformações profundas. Para alguns, o cargo é compreendido como missão temporária; para outros, torna-se palco de vaidades, glamour e ilusões de permanência. Esquecem-se de que todo mandato tem início, meio e fim.

Não raramente, o acesso se torna difícil. Amigos antigos passam a depender de agendas formais para uma simples conversa. As redes sociais se enchem de fotos, abraços em crianças e idosos, poses protocolares que, muitas vezes, alimentam a sensação de celebridade. Em certos casos, instala-se a perigosa impressão de que o poder é permanente. Ledo engano.

Encerrado o mandato, chega o silêncio. O telefone que tocava dezenas — às vezes centenas — de vezes ao dia deixa de tocar. As visitas rareiam. Convites desaparecem. O chamado “pós-mandato” pode revelar um vazio difícil de administrar. Não são poucos os ex-gestores que precisam de apoio psicológico para lidar com a chamada “síndrome do poder” — a brusca transição entre a centralidade absoluta e o quase anonimato.

Há ainda o aspecto jurídico. Durante o exercício do cargo, alguns agentes públicos contam com foro por prerrogativa de função. Com o término do mandato, esse privilégio cessa e processos podem ganhar maior celeridade. Em diversas cidades brasileiras, inclusive em Canaã dos Carajás, ex-gestores enfrentam questionamentos judiciais, bloqueios patrimoniais e desgastes que atingem não apenas o agente público, mas toda a família. Sem estrutura emocional sólida, as consequências podem ser devastadoras, inclusive no âmbito conjugal.

O poder é transitório. O cargo é passageiro. O que permanece é o caráter, a reputação e a forma como se tratou as pessoas ao longo da jornada.

Que este seja um alerta a quem hoje ocupa funções públicas: humildade não é fraqueza; é sabedoria. Mandatos passam. Os verdadeiros amigos — e a consciência tranquila — permanecem.

* Jornalista e ex-dirigente partidário, com atuação e vivência nos bastidores da política paraense desde 1982, unindo experiência histórica, análise crítica e conhecimento de campo.

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