terça-feira, 16 de setembro de 2008

Virgilina pisou na bola

CRÔNICAS DO PC

Dona Maria de Sousa foi em vida uma mulher lutadora e fiel aos seus princípios morais. Ensinaram-lhe os pais a necessidade de ser honesta e dedicada ao lar, obediente ao esposo e bem cuidadosa com os filhos. Nunca recebeu outra noção de liberdade, a não ser ao lado do marido.

Morava em uma fazenda no agreste pernambucano. Corria o ano de 1932 e uma seca avassaladora assolava a maioria dos estados nordestinos. A fome e a sede judiavam com o pobre sertanejo sem posses, obrigando-o a fugir, procurando novos rumos para a vida, uma maneira sofredora de evitar morrer à mingua no canto onde nasceu.

Levas de retirantes deixavam o Ceará e Piauí, e vagavam pelas estradas poeirentas montados em jumentos, mulas, cavalos ou a pé, sem “eira nem beira”, nem saber para onde ir. Grande parte morria enfraquecida pela falta de alimentos.

Mães desesperadas entregavam filhos por onde iam passando, na esperança de que, adotados, poderiam sobreviver. Foi o caso de Dimas, criança negra de quatro anos, que ficou sob os cuidados de dona Maria de Sousa, juntando aos seus quatros filhos, dois homens e duas mulheres, dentre os quais Virgilina, menina sapeca, diferente, a que deu mais trabalho para ser criada e tomar tendência de gente direita.

Quando Florêncio, o marido de dona Maria de Sousa, morreu de ataque cardíaco, a mulher ficou desesperada, temerosa de não conseguir criar os quatros filhos do casal e Dimas, o negro adotado.

De mãos nos recursos herdados do finado, dona Maria de Sousa, jovem viúva, procurou administrar o espólio com segurança, cuja finalidade era garantir a manutenção e educação dos filhos.

Teve capacidade de gerenciamento. Sustentou os recursos deixados, investindo na educação da prole. Sem sair de casa ficaram Virgilina e Dimas, ajudando nos afazeres da fazenda. Os dois sempre ouvindo conselhos de dona Maria de Sousa, orientados para o conservadorismo da época. Para Virgilina, não cansava de dizer, preocupada em ela afirmar não querer seguir regras ditadas pelos costumes: "Cuidado, minha filha. A honra da mulher é a virgindade. E tem de ser preservada, aguardando o casamento".

Virgilina seguiu as regras, a duras penas, se esforçando para não decepcionar. Foi dureza, mas conseguiu chegar aos 25 anos pura, embora sofresse com freqüência de pesadelos pela falta de homem. E casamento, nem se falava, o pretendido não aparecia.

Virgilina, um dia, perturbada por pensamentos confusos, determinou para si mesmo: "Velha eu ficarei. Moça velha? Jamais!". E deu... deu... e deu... Dentre as deitadas e estripulias, deu passadas erradas, sem se resguardar.

Naquele tempo não existia preservativos e aconteceu de Virgilina pegar barriga, depois de ter um caso às escondidas com um jovem viajante potiguar, descendente de suecos, vendedor ambulante de bugigangas. Foi um Deus nos acuda, depois que o caso ficou por conta dos linguarudos, comentado de boca em boca.

A salvação da honra da família deveu-se a Dimas, que não admitia mais comentários maldosos, e assumiu o débito dos outros, pondo a culpa em sua pessoa. Tudo combinado. Só foi o vigário aparecer em desobriga e casou-se com Virgilina. Viveran felizes por muitos anos. Tiveram oito filhos. Um branco e sete negros, e os dois não admitiam explicações a ninguém sobre a criança loura de olhos verdes, que os mais maldosos chamavam de Vi King.

Pedro Cláudio de Moura Reis (PC) / E-mail: pcmourareis@yahoo.com.br

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